Insônia Duvidosa

O cego mundo em que atravesso

tento ver o que não enxergo

prever o que virá

como a futura borboleta dentro do casulo

imaginando-se fora, com suas cores

Há algo que impede e não há nada que possa mudar

Fazer parte de forma a não entender

Tudo muito confuso, complicado

trazendo o tempo, passado, futuro

no presente sem explicação

O duvidoso sentimento cavando sua pá

em nossas mentes sem experiências

árvores crescendo no concreto

edifícios perdidos em meio ao pasto

Tudo sem sentido como nuvens

querendo sempre ter formas no céu

Vamos nos encontrar, um dia ou outro

mas, quando? tão perto? distante?

Fixam-se neuroses explícitas causadas pela dúvida constante

Amanhecerá do mesmo jeito, diferente para nós, entretanto

A comunicação com ruídos incontidos

contidos por dentro

gritando por fora

Esse escândalo comum que quero saber se faço parte

entender quando virá

para conseguir dormir tranquila.

26/04/1999

Palavra cega

Palavra cega adoçando os lábios

mordo-os

Devoro o desejo de escrever

amorteço os sonhos

esqueço a falsa realidade

Mastigo o papel com frases sem sentido

a linha azul no céu branco

a força do pensamento eterno

fugindo sempre na mesma direção

levemente torta

Vou te encontrar amanhã

deitado no colchão das fadas

dormindo como um feitiço

Vou beijar seu rosto quente

expressando o sonho de sempre

o carinho nas sombrancelhas

trazendo aquele leve suspiro

e um beijo tranquilo.

09/03/1999

No peso do teu olhar

No peso do teu olhar,

a minha medida

Mulher que sou

Sou abrir de asas

Metade inteira

repleta no que é nosso

O nosso existir independe

somos aquém um do outro

É assim, entretanto,

que nos encontramos,

nos construímos

O que existe entre nós

é a sensação do abraço

contínua

é o aroma do primeiro pedaço

Meu estômago repleto de borboletas

O lábio largo, longe de uma ponta à outra

A proximidade como

o começo do riso

A conversa como

o tempo esquecido

O cheiro como

essência do dia

Perco-me ao descrever-te

Incerteza que és,

vacilo

Ainda assim, confio-te

essa alegria lenta

essa dedicação a mim mesma

Por me sentir mais mulher

é assim que faço-me ao teu lado

Benefício próprio

Vantagem bilateral

Ergo-me com mais força

ao ouvir tua voz,

eco da minha.

Um sussurro doce

mordendo-me o pescoço

delicioso,

não-certo,

desejado.

14/03/2006

Dedicatória em um livro de Fernando Pessoa

(dedicatória que escrevi em um livro de Fernando Pessoa a um amigo filósofo)

Querido amigo filósofo:

Nas diversidades dos “eus”, nos encontramos – não sempre, mas muitas vezes.

O exercício da expressão clara e poética daquilo que nos é íntimo, interno, não é uma benção das mais populares. Somos muitos interna e externamente e trazer à tona a parte que nos cabe a cada ser diferente parece ser uma adaptação diária e árdua.

Por que buscamos, então, de maneira tão obstinada, ser algo para os outros? Por que acreditamos precisar dos outros para sermos nós mesmos?

Talvez, a necessidade pelo outro seja a necessidade de si mesmo e, ao buscar o outro, buscamos um espelho.

Ainda assim, se mantém nossa diversidade interna. Como disse anteriormente, não é fácil expressar tal condição inerente ao ser humano. Alguns possuem este poder e traduzem, quase sempre, outros além de si mesmo.

Espero que Fernando Pessoa possa traduzir o seu espírito com a pluralidade característica desse poeta. Espero que possa encontrar nessas páginas um pouco de si mesmo, pois sei que está sempre nesta busca.

Um beijo,

Sofia

fevereiro de 2006

Guimarães e a escrita

A Revista Bula publicou essa semana uma entrevista de Guimarães Rosa, concedida poucos meses antes de sua morte. Divina. É maravilhoso tentar entender como os grandes escritores pensam as palavras. Com Guimarães, a relação do escritor com elas é ainda mais profunda.

“Escrever, para mim, é como um ato religioso.”, diz o mineiro…

A entrevista na íntegra está aqui.